Uma cena aconteceu aqui neste lugar
Se foi hoje cedo ou à bocado não me cabe a mim falar
O que sei daquilo que aqui se passou
Não é completo de todo, é só o que restou
Eram duas as míudas que andavam por aí
Andavam, quer dizer,
Não foi bem isso que eu vi
Elas tinham outros modos de locomoção
Flutuavam no ar, sem pôr os pés no chão
O que eu sei daquilo que aqui se passou
Não é completo de todo, é só o que restou
Flutuavam, sim, a três dedos da calçada
Mas até aí tudo bem, ninguém dizia nada
O pior foi quando essa distância cresceu
Para quatro braços, vinte pernas, kilómetros, sei lá eu
O que se sabe agora é que deixaram de se ver
Esvairam-se no espaço
Isso deu pr’a entender
O que sei daquilo que aqui se passou
Não é completo de todo, é só o que restou
Olhem secalhar foi de todas as viagens de avião
Que faziam para efectivar uma colaboração
E para verem as coisas em perspectiva
De frente, de lado, de baixo e de cima
Devem ter tomado gosto pelas alturas
Por espaços livres no ar e sem ranhuras
Ficaram a gostar daquele lugar envolto
Onde tinham espaço p’ra isto aquilo o aquel’outro
Mas olhem que também não sei dizer muito mais
Só que andam por aí
Em realidades virtuais
E uma cena que’aconteceu aqui Neste lugar
Se foi mesmo agora ou à bocado não me cabe a mim falar
Aquilo que eu sei do aqui se passou
Não é completo de todo, é só o que restou
As míudas pisgaram-se
Esvaíram-se daqui
Foram para o espaço
Foram por aí
Não sei bem contar
O que aconteceu
Só que o que aqui estava
Desapareceu
Agora devem andar por aí à toa
Perdidas pelo vácuo
Ou mesmo por Lisboa
Mas agora também
Nem quero saber
Está tudo muito estranho
Pr’a tentar compreender
Aquilo que eu sei do que aqui se passou
É incompleto, sim, mas é o que restou
Devem estar trancadas
No canal de ligação
Que se ergue na fronteira
entre o real e a ficção
E agora não sabem o que fazer
Se seguir, se ficar, se voltar a desaparecer
Secalhar o melhor
É deixar estar como está
Poupam-se as viagens para aqui e acolá
Entaladas no vasto espaço sideral
Estão agora a perguntar: “Entramos no portal?”
(Que talvez as trouxesse de volta
Mas sejamos francos
A viagem é bem torta)
E se a gravidade aqui em baixo não perdoa
Lá em cima as míudas movimentam-se na boa
E uma cena que’aconteceu aqui neste lugar
Se foi mesmo agora ou à bocado não me cabe a mim falar
Aquilo que eu sei do aqui se passou
Não é completo de todo, é só o que restou
Levantaram voo
Fugiram daqui
Eu bem olhei à volta
Mas nunca mais as vi
Mas olhem que mesmo antes de bazarem de vez
Pediram-me p’ra contar esta história p’ra vocês
Este texto foi ‘rappado’ por João Constantino no dia 8 de Outubro
de 2010, durante a inauguração da exposição Vestígio no Pavilhão
27 do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa.









